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Passar a bola

 

Passar a bola é uma competência tardia.

Se já viram um bando de miúdos com 6 ou 7 anos a jogar futebol, verificaram que esse jogo tem características muito especiais. A disposição dos jogadores no campo é muito engraçada: todos os jogadores, tirando os guarda-redes (e a verdade é que nenhum quer ser guarda-redes), se encontram concentrados num único ponto - o ponto onde se encontra a bola. Visto de cima parecerá um malmequer distorcido, em movimento irregular dentro de um rectângulo...

Vão lá dizer a um destes miúdos que passe a bola a outro... Seria o mesmo que dizer-lhe que abandonasse o jogo e deixasse os amigos a jogar. A relação é de cada um com a bola. O conceito de equipa é qualquer coisa que aparece mais tarde, trazido pela intervenção de um treinador ou pela constatação forçada da impossibilidade de vencer a equipa contrária apenas com o esforço individual, sem a utilização de uma táctica, da entreajuda, da união de esforços. É mais tarde que aprendem a ocupar cada um o seu lugar, que encontram a sua forma específica de colaborar.

O futebol, como outros desportos de equipa, é inimigo do egoísmo e do egocentrismo. Introduz as noções de grupo, de bem comum, de sacrifício pessoal por uma causa maior que o interesse particular. Durante muito tempo - antes de os homens de negócio terem visto nisso uma forma de ganhar dinheiro - foi esta uma razão importante para que se fomentasse a prática desses desportos entre a juventude.

Quando o desportista sacrifica o seu interesse pessoal, o seu desejo de se exibir ou de brilhar, por um objectivo que não é apenas seu, mas do conjunto, descobre o conceito real de equipa. Ao princípio custa-lhe, mas com o tempo vem a nascer o orgulho grande de pertencer ao grupo; e a alegria da camaradagem; e a descoberta da amizade e de um sentido novo, mais cheio, para todas as coisas.

Também a vida é um jogo assim. O frio, as feras, a fome encostaram os homens uns aos outros. Tornaram-se assim mais fortes. Cresceram juntos, moldaram uma língua comum, habitaram dentro dos mesmos horizontes. Da família fizeram a pátria, sem que a pátria anulasse a pessoa ou a família. Compreenderam que não há vitórias individuais; que não adianta alguém chegar à meta se os outros  não vão também.

Mas parece-me que nos temos tornado imaturos, talvez por termos agora uma vida mais fácil do que noutros tempos. Numa época em que começam a existir condições para que da pátria, sem a anular, se faça um outro conjunto maior, porque o mundo se tornou mais aconchegado, deparamos com a força imensa do egoísmo nas suas diferentes formas.

É ver, por exemplo, como certas classes profissionais se organizam para conseguirem que os seus membros dêem cada vez menos à sociedade e dela recebam cada vez mais. É ver como se vão deixando ficar para trás, entregues à sua sorte e à sua solidão, muitos idosos e muitos doentes. É ver como não encontramos tempo para as nossas crianças, de tão atarefados que estamos em alcançar os nossos objectivos. É ver como se têm utilizado energias imensas em encontrar soluções para os caprichos egoístas dos ricos, mas se esquecem as doenças que dizimam os pobres.

Esquecemo-nos de que os nossos dons não são para nós, de que devem ser colocados ao serviço dos outros, adquirindo assim a sua verdadeira dimensão. Se alguém tiver o dom da música, deve fazer com ele belas sinfonias. Não para deixar o seu nome na história ou ganhar dinheiro, mas para transmitir um pouco de beleza a muitos que têm uma vida cinzenta. Se alguém possuir o talento de negociar, ou a capacidade de trabalhar muito e bem, pode vir a gerar muita riqueza. Mas essa riqueza, se não a utilizar naquilo que é útil a outros, se a usar para o pobre prazer do seu coração apodrecido, há-de apodrecer-lhe nas mãos.

Não chegamos a lado nenhum se não levarmos os outros connosco...

 

 

Escrevi todos os textos que encontra neste lugar. Pode utilizá-los desde que indique o autor e a fonte (http://cidadela.com.sapo.pt). Se colocar um texto em algum lugar na internet, deixe também uma ligação para a Cidadela.

 






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